Um Jornal do Campus

Chegaram ao Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP, as 8.000 cópias da edição
551 do Jornal do Campus. Saindo da aula eu olhei a edição, ela olhou de volta para mim, no departamento de jornalismo ninguém espera a distribuição, a notícia é pública, é nossa, quem passar pega, só quem é de fora desse mundo tem que esperar. Tiro uma cópia do papel pardo e folheio. Vejo as principais notícias, leio dos leads, já sei das que você vai gostar,mentalmente já separei qual página vou deixar aberta na sua mesa. Eu encaro o jornal e ele encara de volta, nos olhos sorridentes dos reitoráveis, que você tanto odeia, no calor da emoção, na curiosidade da notícia, eu não resisto e pego um pra te levar. 

Tomo o 8082 na Raia, passo na Politécnica, faço a curva na Praça do Cavalo e desço ali no IPT, o cobrador era aquele careca, que você não gosta. Se pudesse eu corria, mas vou andando lentamente, passo na frente do Bandejão e quando chego perto da sua mesa, ali de frente para a minha, pronto para te entregar o jornal, eu me lembro. 

O vaso de flores ficou no seu lugar, as flores que colheram no jardim no dia que nos despedimos, já fazem semanas, mas elas estão lá, resistindo ao tempo. Centenas de vezes me pediram para jogar elas fora, até agora não obedeci, também parei de fazer café, ele não fica tão bom quanto o seu. Eu olho para dentro de mim, que idiota eu fui, não lembrei que você não estava mais lá, não lembrei que eu não notei que você não estava bem, e agora não tinha mais ninguém para ler aquele JC comigo. 

Na edição 550, fiz a mesma coisa, mas deu tempo de ler, de começar, iamos falar mais no dia seguinte, eu achei que íamos ter tempo, naquela Quinta-Feira eu estava tão apressado, mas não tivemos tempo. Encaro aquele JC, amasso e rasgo, piso e jogo fora, não quero mais ver ele, não quero que ninguém veja. A gente ia rir das notícias bobas, do caso da Capivara que tinha me dado tanta dor de cabeça nas semanas anteriores. 

Eu molho o papel amassado, fazia tanto tempo que eu não chorava, que eu não conseguia chorar. Tenho raiva dessa edição do jornal, raiva de uma das maiores fãs do impresso não está mais lendo ele e ninguém fazer nada, raiva deles não terem parado tudo imediatamente em protesto contra o universo, raiva pela vida ter continuado, pelo mundo não ter parado de girar. 

Joguei aquela edição fora, depois daquela cena toda, pelo resto do dia esperei qualquer barulho da porta ser você chegando. Me recomponho, ao final do dia volto ao CJE, pego outra cópia e sento do lado de fora, no cair da tarde, desde que aconteceu, as nuvens ficaram mais bonitas, pois agora, lá do céu é você que desenha todas elas.

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