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Um Jornal do Campus

Chegaram ao Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP, as 8.000 cópias da edição 551 do Jornal do Campus. Saindo da aula eu olhei a edição, ela olhou de volta para mim, no departamento de jornalismo ninguém espera a distribuição, a notícia é pública, é nossa, quem passar pega, só quem é de fora desse mundo tem que esperar. Tiro uma cópia do papel pardo e folheio. Vejo as principais notícias, leio dos leads, já sei das que você vai gostar,mentalmente já separei qual página vou deixar aberta na sua mesa. Eu encaro o jornal e ele encara de volta, nos olhos sorridentes dos reitoráveis, que você tanto odeia, no calor da emoção, na curiosidade da notícia, eu não resisto e pego um pra te levar.  Tomo o 8082 na Raia, passo na Politécnica, faço a curva na Praça do Cavalo e desço ali no IPT, o cobrador era aquele careca, que você não gosta. Se pudesse eu corria, mas vou andando lentamente, passo na frente do Bandejão e quando chego perto da sua mesa, ali de frente para a minha, pron...

Carta a um amigo em Desespero

Soube por meio de cartas que se encontra desesperado, caro amigo, pois venho eu aqui lhe consolar das perdas e libras das angústias. Sei o quão assustador é a saída do mundo universitário para o universo laboral, e que deves estar pensando como farás agora, sem os muros da faculdade a lhe protegerem.  Em certas noites penso o mesmo, mas há de ter uma solução tanto para mim quanto para você, sei bem como é estar desesperado pelo acerto da vida. A velocidade com que as coisas acontecem e que a vida passa tão rápido, mas pense em tudo que já fizeste nesse curto tempo, de tanta coisa que podia ter acontecido, de fato só o melhor se deu.  Esses dias me confessou que não é feliz, mas por que de não ser feliz? Viver todo dia já é motivo para ser feliz, por vezes a vida quase me foi tirada, e penso constantemente nisso, ser feliz já basta viver, estar feliz, isso é um torto que nem sempre teremos. Eu jamais diria para estar feliz o tempo todo, pois deve ser um irritante mal estar, mas...

Fonte Post Mortem

Primeiramente agradeço ao amigo Vitor Forini pela ideia e inspiração e à Catarina por emprestar sua história. Catarina já tinha tentado de tudo antes, distribuía currículos pelas redações no centro da cidade, enviava e-mails para os recrutadores, até mesmo pedia cartas de recomendação ao professor, e nada. Nenhuma empresa chamava ela para trabalhar. Certo dia, um milagre, o barulho de notificação da caixa de e-mail surgiu e ela foi correndo.  Era a primeira resposta afirmativa, o primeiro “sim”. Tinha conseguido vaga no jornal de maior circulação da cidade, a Gazeta, popularmente chamada de Gazetão. Daí foi uma correria que só, RG, CPF, comprovante de residência, protocolo da certidão de nascimento do tio da mãe de um primo lá de Maringá, tudo para confirmar o emprego.  Dali uma semana o primeiro dia, tudo certo, era oficialmente estagiária do Gazetão. Ganhou uma mesa no canto da redação, perto da janela, com vista para o trânsito da 23 de Maio. Ela trabalhava diretamente para...

Precisamos falar sobre os cangurus

No capítulo 025 do remake da novela Vale Tudo, o personagem do ator Alexandre Nero, Marco Aurélio, o presidente da TCA, está à procura de sua mala de dólares, perdida após a morte de Rubinho. Na sua saga de busca pelo ladrão da mala, Marco Aurélio pergunta ao seu fiel escudeiro, Frias, o que ele faria caso tivesse roubado os dólares:  “Eu ficaria um tempo com o dinheiro pra ninguém desconfiar, depois viajaria para a Austrália, conhecer esses bichos que tem lá, ornitorrinco, canguru…”  Essa cena me rendeu um Pensamento Intrusivo, como um estalo súbito no meu consciente, portanto o texto dessa semana é só de ele, os cangurus!  Acho muito grave como não há ninguém falando sobre os cangurus. Tradicionais do continente australiano, os cangurus são marsupiais da família Macropodidae, e atualmente são a maior espécie habitante do continente, o governo australiano estima que quase 45 milhões de cangurus vivem no território (isso sem contar os que está dentro das bolsas), esse núm...

O Triângulo das Bermudas

Eu sinceramente achava que o Triângulo das Bermudas seria um problema muito maior na minha vida. Quando era pequeno, ali no pequeno bairro de São Miguel Paulista, eu tinha um grande medo, o Triângulo das Bermudas! A gigantesca porção de água que fica entre o Caribe, Miami e Porto Rico era uma das grandes preocupações na cabeça do eu infantil, que temia viagens de barco com medo de que um dia entrasse por acidente nesse território de um milhão de quilômetros quadrados.  Perdi a conta de quantas noites eu perdi acordado pensando em como sobreviveria a esse embate, caso um dia, ele fosse as vias de fato, o que para mim parecia inevitável depois de um tempo. A cada dia eu explorava mais o triângulo e eu sabia que ele sabia que eu sabia dele, estavamos eu e ele nessa Guerra Fria, eu o decifrava e ele se retirava para me derrotar. Vale lembrar do surto que tive quando um primo foi para Miami, e seu voo deveria passar por lá para chegar ao destino, eu tentei passar para ele todo conhecime...

Não sei ser condecendente com gente burra

  A frase que é título do texto de hoje é de autoria da Marlene Mattos, conhecida nacionalmente por ter sido a agente da cantora Xuxa, lá nos longínquos anos 1990. Embora venha de uma péssima pessoa, que tratava todos ao seu redor de forma péssima, eu devo admitir que me vi muito representado nessa frase, simplesmente não consigo lidar com gente burra. Primeiro, vamos estabelecer um fato universal, ser burro é uma escolha (não confundir burrice com ignorância, que é um estado em que o contexto social no qual a pessoa está inserida afeta diretamente seu acesso ao conhecimento), e por tanto, reagir a burrice alheia é natural e deveria ser mais normalizado, mas não é. Se você tratar uma pessoa burra como burra, ela vai obviamente se ofender, mesmo que não tenha forma diferente de tratá-la, por essa ser a sua natureza.As pessoas param de gostar de você quando vocês as trata pelo que elas são, já que elas preferem ser tratadas como elas acham que são. O grande problema da vivência com g...

Um homem pulou no trem, e eu entendo

Estava mais um dia a caminho do metrô de São Paulo, quando ao chegar na estação Carrão, da linha 3 Vermelha, quando soube que um cidadão havia se jogado no trilho do trem. No começo, fiquei com raiva, aquela proeza dele custaria no mínimo uma hora para mim e para meu caminho usual, mas depois, comecei a pensar, o que se passa na cabeça de um sujeito como esse? Será, que pela primeira vez na vida, aquele homem, que tão pouco tinha, decidiu cometer seu primeiro ato de egoísmo puro, e gostaria de um pouco de atenção por causa disso? Será que ele tinha alguém em casa esperando? Teria alguém chorado por ele no seu ato final? Será que alguém ainda contaria uma piada ensinada por ele? Alguém ainda ouviria as músicas que ele havia mostrado? As frases que usava? Alguém ainda iria sorrir quando se lembrasse dele?  A verdade é que as pessoas seguiriam com suas vidas, talvez sem notar o quanto dele haviam levado consigo, ele até poderia ser só uma memória que arranhava a superfície, mas estava...