O Triângulo das Bermudas

Eu sinceramente achava que o Triângulo das Bermudas seria um problema muito maior na minha vida. Quando era pequeno, ali no pequeno bairro de São Miguel Paulista, eu tinha um grande medo, o Triângulo das Bermudas! A gigantesca porção de água que fica entre o Caribe, Miami e Porto Rico era uma das grandes preocupações na cabeça do eu infantil, que temia viagens de barco com medo de que um dia entrasse por acidente nesse território de um milhão de quilômetros quadrados. 

Perdi a conta de quantas noites eu perdi acordado pensando em como sobreviveria a esse embate, caso um dia, ele fosse as vias de fato, o que para mim parecia inevitável depois de um tempo. A cada dia eu explorava mais o triângulo e eu sabia que ele sabia que eu sabia dele, estavamos eu e ele nessa Guerra Fria, eu o decifrava e ele se retirava para me derrotar. Vale lembrar do surto que tive quando um primo foi para Miami, e seu voo deveria passar por lá para chegar ao destino, eu tentei passar para ele todo conhecimento que havia obtido para ele poder vencer meu inimigo, até recomendei a série Lost, caso ele precisasse de dicas de sobrevivência, mas ele não me deu bola, sorte a dele que nada aconteceu. 

Quando esse primo retornou da viagem, eu entendi a mensagem que o triângulo me enviara, era eu que ele queria e eu seria o único que poderia derrotá-lo. Crescendo mais um pouco, fui vendo que o triângulo não seria tão rotineiro quanto pensei que seria, mas mesmo assim comecei desde cedo a me precaver para caso um dia eu enfrentasse meu grande inimigo aquático. Nossa luta estava postergada, de tão épica que seria, precisava me preparar ao máximo. 

Aprendi a nadar, tomei algumas aulas online de código morse e até mesmo fiz um curso para aprender a contar milhas náuticas. Náufrago, Atlantis, Ilha Perdida, Lagoa Azul e até mesmo Robinson Crusoé não saíram da minha lista de mais assistidos no Netflix, eu precisava saber a todo custo como sobreviver em uma ilha deserta caso precisasse. Assisti até mesmo a série animada Gravity Falls, onde aprendi tudo sobre como lutar contra triângulos misteriosos!

Acho que nem mesmo E. V. W. Jones, um jornalista, que escreveu as primeiras matérias sobre desaparecimentos de barcos no triângulo, tinha tanto medo do Triângulo quanto eu, logo me apropriei dos assuntos que envolviam esse meu adversário Marinho. Ovnis, bolhas de metano do tamanho de barcos, vortexs, vestígios de atlantis e uma lista infinita de barcos sumidos nos últimos 500 anos. Eu estava pronto para encarar aquela figura aquosa trilateral. 

Mas logo que cresci, a batalha contra o triângulo foi ficando mais e mais distante, logo os livros, agora quadrados, foram tomando o lugar do meu antigo inimigo, que com o tempo, virou um pensamento saudosista. A física e a química substituíram os ovnis e os atlantes, e todo conhecimento acumulado até então já não me era mais tão útil, e eu comecei a ficar com saudades do Triângulo das Bermudas

Hoje, só de pensar nele eu já nem me recordo mais quais eram meus planos para derrotar esse demônio líquido, perdi minha capacidade de usar o código morse, e a bola que eu carregava comigo para ser o Meu Wilson, caso necessário fosse, se perdeu quando eu mudei de casa pela primeira vez. Esta figura piramidal de água salgada ficou distante de mim, e deve ter me bloqueado nas redes sociais da imaginação.

Meu velho amigo Triângulo das Bermudas, agora deve ter mudado de vida, entrado na academia, ficado bombado, mudou de manequim 39 para o 42, deve ter trocado as bermudas por calças cargo, que valorizam mais seu corpo e até mesmo deve ter comprado um conjuntinho de regatas body-fit. Agora somos diferentes demais, eu e ele, impossibilitados de conviver totalmente, pelas diferenças e pelo tempo, o impiedoso e cruel tempo.


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