Fonte Post Mortem
Primeiramente agradeço ao amigo Vitor Forini pela ideia e inspiração e à Catarina por emprestar sua história.
Catarina já tinha tentado de tudo antes, distribuía currículos pelas redações no centro da cidade, enviava e-mails para os recrutadores, até mesmo pedia cartas de recomendação ao professor, e nada. Nenhuma empresa chamava ela para trabalhar. Certo dia, um milagre, o barulho de notificação da caixa de e-mail surgiu e ela foi correndo.
Era a primeira resposta afirmativa, o primeiro “sim”. Tinha conseguido vaga no jornal de maior circulação da cidade, a Gazeta, popularmente chamada de Gazetão. Daí foi uma correria que só, RG, CPF, comprovante de residência, protocolo da certidão de nascimento do tio da mãe de um primo lá de Maringá, tudo para confirmar o emprego.
Dali uma semana o primeiro dia, tudo certo, era oficialmente estagiária do Gazetão. Ganhou uma mesa no canto da redação, perto da janela, com vista para o trânsito da 23 de Maio. Ela trabalhava diretamente para o chefe de redação, o Borges. Repórter velho, de campo, que saía atrás da fonte nem que ele estivesse preso em Alcatraz, fosse o que fosse, ele não acreditava no impossível para o jornalista.
Na primeira reunião de pauta, lá estava a Catarina, com seu caderninho, uma caneta, sentada no cantinho, esperando. Borges chegou chegando, logo já chamava por ela, sem pudor algum:
- A estagiária, cade? cade?- Disse de supetão
Catarina ergueu a mão direita, com vergonha se fez presente.
- A pauta da Rua do Ouvidor é sua.
Todos pararam atônitos, em choque, sem reação. O caso era difícil, um sujeito, desavisado como todo sujeito sempre é, deu de atravessar a rua sem nem olhar para os lados e pá, um motorista, tão desavisado quanto o sujeito, pichou ele no asfalto. A polícia só achou o sujeito na manhã seguinte, o motorista sumiu de tudo, todas as janelas fechadas, ninguém tinha visto nada, o radar estava quebrado, era tarde da noite e o CET já tinha cochilado. Para piorar, o pichado desatento era amigo do prefeito, investigação completa para saber quem era o tal do motorista pichador.
Vários repórteres já tinham tentado,Jornalistas experientes já haviam tentado, a polícia já havia tentado e nada. Borges já tinha mandado até mesmo o Guimarães, que tinha conseguido o furo do vazamento de gás na creche no ano anterior, e nada, faziam três semanas do caso e o trânsito da cidade ainda estava parado, por nada o prefeito deixava arquivar o bendito do caso.
E lá foi a Catarina, com seu bloquinho, chegou na rua do Ouvidor, conversou com um aqui, com outro acolá. Tomou um pingado na padaria, uma cachacinha no bar e nada de ninguém, nenhuma pessoa tinha visto um simples acender de faróis. Fez isso dois dias, rezando para Nossa Senhora Desatadora dos Nós, de tanta reza, tanta cachaça e tanto pingado, ela encontrou a Dona Zélia. Velha carrancuda, que via a vida de todo mundo e sabia tudo que todos faziam. “Tinha que ser ela!” Pensou Catarina.
Mas bem naquele dia a velha tinha caído no sono assistindo o Bial e tinha ido pras cucuias com as fofocas
- Mas se alguém pode saber disso, é o Geraldo, dorme na cadeira na frente do bar quase sempre que bebe -
Ali, a primeira informação em quase um mês de caso. E lá foi ela atrás do Geraldo, mas só achou a cadeira, foi no bar e logo o dono já falou
- Geraldo foi! Babau! Teve um ataque do coração, desde então as garrafas estão cheias aqui no bar, tô pensando até em fechar. -
Ah pronto, era só o que faltava para a Catarina, tinha ido do céu ao inferno, achou a velha fofoqueira, mas ela tinha dormido, foi até o bebum do bar e ele tinha morrido, não tinha jeito que desse jeito naquilo. Voltou toda cabisbaixa para a redação, chegando lá foi direto na sala do Borges, empurrou a porta de vidro e já foi logo dizendo tudo, falou da velha dorminhoca, falou do bebum e no final entregou o santinho do homem, que o dono do bar tinha dado para confirmar a informação.
- E o que que tem?- Falou o Borges - Fonte é fonte! Dá seu jeito.
Catarina até foi argumentar, mas lembrou que era só uma estagiária, baixou a cabeça e lá foi. E agora como falar com o morto? Lembrou que mãe tinha um amigo lá de Maringá que já tinha ido para uma daquelas cidades espíritas, e sabia tudo que era contato de médium. Odorino Alves, médium na praça da República. Catarina tomou o metrô e chegou lá, sabia já o nome completo do bebum, Geraldo Marques Silva. Deu o nome para o médium Odorino e esperou.
- Sem sinal - Falou Odorino
- Como assim sem sinal?
- Deixe seu recado após o sinal - Falou Odorino - O homem deixou o telefone fora do gancho
- Mas o que?
- São 50 reais- Falou o homem.
Estupefata, a estagiária saiu da casa do médium somente desejando que São Pedro arrumasse a antena do céu o sinal logo voltasse. Apelou então para outra coisa, foi a uma sessão de mesa branca, pediu para o Pai de Santo chamar o homem e esse convite ele não podia recusar. Botaram um copo de cachaça e o homem logo baixou:
- Que que é?- Falou Geraldo
- Oi seu Geraldo, Catarina, repórter do Gazetão. Se lembra da noite de um acidente de carro lá na Rua do Ouvidor.
- Num sei de nada não
- Não viu nada mesmo, nem um farol acesos, uma cor de carro, um ronco de motor, uma letrinha sequer da placa?
- Nadica de nada
As esperanças se foram para Catarina, ela já ia desanimar, mas logo bateu mão na mesa, virou pro espírito baixado e falou:
- O senhor não vai embora até me contar alguma coisa, nem que o senhor investigue aí no céu para saber quem dirigia aquele carro.
- Minha filha, eu não sei de nada
- Dá seu jeito.
Logo o homem saiu, voltou dali quinze minutos e abriu o bico:
- Era um Onix Prata, farol de milha, placa IGT4F509.
Catarina foi ao céu e voltou, sua felicidade era imensa, deixou o velho ir e voltou triunfante para a redação. Passou pela sua mesa e foi direto para a sala do Borges, exuberante ela proclamou:
- Problema resolvido, tá na mão a placa e o modelo do carro, pode conferir.
Borges pegou o papelote na mão, olhou e já exclamou:
- Eita, não precisa mais, acontece que o atropelador era mais amigo do prefeito que o atropelado, a pauta caiu!
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