28° edição da Mostra de Tiradentes- Fui humilhado, ignorado, fotografei, fiz amigos e entrei na fase que ou o cinema morre para mim, ou eu vivo dele.
Citando a grande cantora Evinha, “E daí esse meu silêncio profundo?”. Comecei a ouvir a música Espera Para Ver da Evinha logo que entrei no Ônibus a caminho de Tiradentes. Não dormi nada no caminho, um sujeito roncava fortemente e eu só pensava no ódio profundo que sentia por ele. Durante 12 horas me joguei nos clássicos da Evinha, foram horas introspectivas
Depois de 12 horas cheguei a Tiradentes, acabado só no caminho, e já me entreguei a frenética programação do festival. No começo, eu pensei que sentiria a magia do cinema logo de cara, mas não rolou de forma alguma nesses 7 dias, entrei em desespero logo de cara, mas vamos chegar lá.
Primeiro a casa, fiquei bem distante do centro da cidade, em uma casa com 5 pessoas muito especiais, Rodrigo Sousa e Sousa, meu professor, e o maior montador de película que temos no país inteiro, Aninha, fotógrafa de 3 edições de Olimpíadas, Dona Rosa, a mãe do Rodrigo, Ariadne e Luana, que trabalham no Lab. revelando filmes, e eu, eles foram meus companheiros nessa jornada em Tiradentes, eu não poderia ter pedido companhia melhor.
Cheguei com uma câmera analógica, um filme com fungo e uma cidade para fotografar.
Como tudo na minha cabeça, vamos tratar das coisas de forma aleatória e sem nenhuma conexão lógica. Muito aconteceu nessa semana, e vamos começar pelo fatídico dia que fui buscar o catálogo da Mostra. Para contexto, devo explicar oque me levou a Tiradentes. Eu sempre quis ir ao festival, mas sempre me faltava algo, fosse dinheiro, vontade, razão ou coisa qualquer. Chegou então a iniciativa da Universo Produção (idealizadora do festival) chamada #EuFaçoaMostra, onde 12 filmes de 1 minuto, feitos na Vertical seriam selecionados para ganhar um pequeno espaço na Mostra, nas Redes Sociais deles e no Catálogo. Fui lá e fiz um filme, o melhor dentre os selecionados com todo respeito, e pronto, agora eu tinha tudo para ir até a Mostra. Pedi demissão, peguei a rescisão e parti para Tiradentes.
Via e-mail eles me informaram que exibiram o curta no festival e que eu ganhei um catálogo da Mostra como Prêmio por fazer parte da composição da 28° Mostra de Cinema de Tiradentes. Fui retirá-la no dia seguinte à minha chegada, Terça-Feira, dia 28/01 na Casa Aimoré, onde fica a secretaria administrativa do festival, chegando lá fui surpreendido por uma moça, que recusou-se a me dizer seu nome, e me informou que estava no lugar errado, expliquei sobre o e-mail recebido e que esse era o único endereço que eu possuía e se ela poderia me dar outro para eu resolver a situação sem incomodá-la. Ela não me respondeu. Levantou, saiu por uma porta lateral e me deixou lá esperando por 30 minutos até voltar com um livro de capa verde, meio amassado e que parecia estar bem escondido, o dito catálogo que havia ganho. Peguei ele com felicidade, afinal pela primeira vez estava vendo algum reconhecimento pelo meu trabalho, eu agradeci e ela soltou um seco “Agora você pode ir embora”, mesmo combalido pela grosseria, eu perguntei se por eu ser um realizador de um filme que fez parte da Mostra eu ganharia algum tipo de credencial, e se o filme seria exibido como dito no e-mail, ela me olhou dos pés a cabeça e me disse que credenciais eram somente para realizadores com “filmes de verdade”. Devo confessar que corri para a casa que estava e chorei por várias horas, pensei em ligar para a minha mãe, pensei em pegar minhas coisas e voltar para São Paulo e desistir do Cinema, afinal o que eu deixava de ter, que aparentemente milhares de pessoas nessa indústria têm?
A única coisa que me manteve no festival foi que já havia iniciado o filme na câmera e precisava encerrá-lo antes de ir embora. Fui lá gastar as 30 poses que restavam e encontrei um transeunte interessante, um homem idoso, de barba longa, toda branca, usando boné verde, carregando uma mochila da mesma cor e com roupas que definitivamente nenhum contemporâneo dele usaria, esse homem era Everaldo Pontes (o Batman, sim eu falei com o Batman por dias!). Conversamos por horas e horas, e simplesmente ele me entregou todo o amor pelo cinema que me faltava naquele momento e isso foi gigantesco para mim, decidi que iria encarar aquilo de frente, ganhar daquele festival na marra.
Agora que cruzei com meu primeiro grande nome do cinema brasileiro, posso compartilhar mais encontros com grandes estrelas, como Thelma Lopes, grande atriz que me confundiu com um ator de Doramas, uma interação confusa, mas fofa. Conversei muito com o Rodrigo Aragão, o herdeiro de Mujica Marins (mais detalhes dessa interação em breve), com Tavinho, conversa que envolveu eu bêbado, ele, a sobrinha dele e dois policiais, além da minha interação com o Daniel Aragão, que me deu ótimo prestígio nos bares do festival, onde eu disse á ele “você não é o Kubrick para usar uma lente daquelas, pega uma 30mm na próxima” (ele não ficou feliz, mas depois fomos até a sessão falando sobre os Beatles e movimento de câmera).
Caoticamente, gostaria de falar sobre encontros neste festival, além do pessoal da casa eu possuía mais alguns conhecidos nesse meio de Tiradentes, o Lucas, diretor de KM100, do qual sou fã assumido, o Lucca Baraldi, que possuía a maior equipe já vista na história desse festival para apenas um filme e também o Otávio Osaki, membro do Júri Jovem dessa edição. Bebi e fumei com o Lucas e tivemos interações muito legais, nos encontraremos muito ainda nesse mundo do cinema, ele ainda com grandes filmes, já eu, não sabemos. Com o Lucca foram breves interações, mas seu filme foi maravilhoso! Simplesmente ótimo, e pensar que ele fez tudo sozinho? Maluco! Acredito que minhas interações com o Otávio merecem um parágrafo só para elas.
Conheci o Otávio há poucos meses, no Festival Mosaico, no qual fui Curador (momento que me deu mais rasteiras emocionais do que qualquer coisa), e fomos conversando aleatoriamente por aí até chegarmos em Tiradentes. Ele estava a trabalho, então poucas interações foram possíveis nesse período, a mais longa, ele provavelmente estava chapado demais para lembrar, mas a cada momento que nos encontramos por aí, ele sempre perguntava como eu estava e me dava um abraço. Nunca tive intenções assim com muitos amigos, na verdade estou acostumado a passar invisível pelos lugares, mas de certa forma com o Otávio lá, eu não me sentia e nem estava invisível. Devo confessar que fiquei até feliz quando, antes de entrar na premiação, ele me disse estar nervoso por ter que subir no palco na frente de 600 pessoas, nunca ninguém tinha me falado como se sentia, então não pude ajudá-lo, mas de certa forma me senti especial, que sensação estranha. Acho que posso dizer que algumas pessoas podem gostar mais da gente do que parece, talvez viremos amigos no futuro, curiosamente pois acho que somos pessoas muito diferentes, mas aí está né, pode se que também não dê em nada, mas e daí.
Vamos seguindo, no dia 31 de Janeiro, eu recebi a notícia da minha aprovação na Unesp, que ficou bem ofuscada pela minha aprovação posterior na USP, mas que me rendeu um dos melhores momentos desse festival. Meu professor, Rodrigo Sousa e Sousa, ao saber da minha aprovação na UNESP e em outras 6 instituições de ensino superior, me disse “Caramba Heitor, você tem noção que é o cara mais foda da sua geração né?”. Essa pergunta começou a ecoar no meu cérebro desde então, será que eu realmente sou tudo isso? Talvez eu seja…
Eu não tinha como garantir que essa frase não ecoasse tanto na minha cabeça até o final da edição. Falando no final da edição, alguns momentos lindos aconteceram na noite de encerramento. Como eu prometi, o Rodrigo Aragão retornaria nesse texto, nesse ano ele lançou o filme Prédio Vazio, um longa fantástico de terror e que me levou ao delírio. Tive a oportunidade de conversar com ele através da Dona Thelma, que fez questão de apresentar o seu “ator de dorama” favorito para o Rodrigo, falamos por 20 minutos antes dele entrar em um painel sobre filmes de terror, a interação foi fantástica, mas o momento realmente aconteceu no pós premiação. Prédio Vazio ganhou o prêmio de Distribuição do Festival, o que tornou Rodrigo o grande vencedor da noite e destaque total, do lado de fora da sala de cerimônias, havia uma fila para falar com ele, eu passei ao lado dele e acenei com a cabeça em cumprimento pela vitória, sabia que ele queria ir para a festa da Mostra e não me indignei a ser mais um para atrapalhar ele. Acreditem se quiser, mas eles saiu da fila, me puxou pelo braço e me deu um abraço, virou para mim por trás dos óculos amarelos dele e me disse: “Só volto aqui ano que vem se tiver um filme seu”...
Não sei falar quantas camadas essa fala tem. Imagina um grande diretor, destaque de um dos maiores festivais de cinema nacional, dizer que abriria mão de voltar ao mesmo Festival no ano seguinte (e também da festa luxuosa que consome ¼ do orçamento do festival), onde ele seria endeusado, simplesmente por não ter um filme de um adolescente que nem sabe nada sobre fazer filmes? É difícil acreditar, e eu até agora não creio, Rodrigo Aragão deve ser um grande mentiroso, ou um homem de fé ininterrupta, ou talvez simpático demais, mas um fato é, ele me disse isso. E agora eu só tenho uma coisa para dizer, 29° Edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, pode esperar, porque eu vou chegar direto na garganta de vocês, com vários filmes “de verdade”.
Espero que tenham gostado do texto, semana que vem tem mais ;)
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